terça-feira, 27 de julho de 2010

RESENHA: POLIGLOTA DO PORTUGUÊS

do livro ensino da gramática. Opressão? Liberdade? de  Evanildo Bechara
por Ananias Lemos Rodrigues

A obra O ensino da gramática. Opressão? Liberdade? expõe-se como análise, de uma crise que ocorre no âmbito escolar e também na sociedade, quanto ao uso da Gramática Normativa e o Coloquialismo, do quotidiano, globalizado. O autor, Bechara (2007), ao analisar como tem sido o estudo da língua materna ao longo dos anos, e não uma segunda língua, demonstra como o docente poderia nortear esse estudo de modo mais eficaz.

A obra de Bechara(2007) é resultado do estudo da linguagem de muitos anos e  traz referência deste e de vários outros séculos, citando pesquisadores de diversas áreas ligada a temas como gramática e Lingüística, tais como Ferdinand Saussure (da Lingüística Geral), o lingüista italiano Antonino Pagliaro, o lingüista Eugenio Coseriu e o professor Raffaele Simone.

De acordo com autor citado acima, nas suas considerações, nota-se claramente o paralelo que ele faz entre o ensino da gramática da atualidade, que ainda privilegia a gramática normativa, as regras e a norma culta contrapondo esse com a maneira de expressão, que grande parte da sociedade faz uso, que tem total “liberdade” de escolha de palavras e muitas vezes limita-se ao coloquialismo popular.

Ao se refletir sobre o ensino de gramática, o linguista italiano, Antonino Pagliaro apud Bechara (2002) afirma que a gramática deveria ser chamada de epistéme, ou seja, um conjunto de saberes nos quais estariam inseridos tanto conhecimentos teóricos como práticos. Entretanto, a escola, geralmente, prioriza um ensino de língua materna e estrangeira voltado para o aspecto formal, sem valorizar a expressão e a fala. Se fizermos um paralelo entre o que foi enfatizado nas escolas no que se refere à aprendizagem dos alunos, nota-se que se valorizaram critérios que se assemelham aos defendidos pela teoria estruturalista e gerativista. Já as teorias funcionalistas e as da enunciação foram, muitas vezes, “esquecidas”. (ANA CLARA GONÇALVES ALVES DE MEIRA, Mestranda do POSLIN/FALE/UFMG, 2009).

Conforme Bechara (2002/2007) não é o fato de se ensinar todas as regras gramaticais aos alunos que garantirá que esses usem a língua de forma eficaz. Como citou Said Ali apud Bechara, o excesso de métodos pode causar um efeito contrário do desejado, a indisciplina. É possível que remetamos essa indisciplina a dois fatores, os quais são: mesmo tendo contato com uma grande quantidade de regras, muitos alunos não conseguem escrever de acordo com a norma culta, nem interpretar os textos que lêem. O segundo fator seria a indisciplina do falar, pois nem sempre reproduzimos “o falar” regido pela gramática. Além disso, Said Ali alude a outros pontos importantes, afirmando que o ensino precisa ser adequado àquilo que o aluno é capaz de apreender. Entendemos, portanto, que não é possível desejar que um aluno compreenda o que é uma oração subordinada substantiva subjetiva, por exemplo, se ele não sabe o que é sujeito. Said Ali argumenta que a pedagogia pode contribuir para que o professor saiba se nortear ao escolher os conteúdos que devem ser ministrados em uma dada classe. (ANA CLARA G. A. DE MEIRA citando BECHARA, 2002).

O grande problema dessas análises é que o discente, geralmente, consegue analisar sentenças, mas não é capaz de ler nem de escrever. A partir das reflexões de João Ribeiro, podemos inferir a questão do letramento tão em voga na atualidade, pois quantos sabem ler, ou melhor, apenas decodificam as letras, mas não conseguem interpretar o texto, compreender a mensagem. Bechara (2002/207) citando João Ribeiro (Gramática Portuguesa).

A obra de Bechara “O ensino da gramática. Opressão? Liberdade?” evidencia temas que precisariam de muitos e muitos exemplares dedicados integralmente, para que pudesse dar o devido tratamento aos mesmos.  Porém, consegue atingir algo bastante satisfatório com o exemplar, pois, põe em relevo e convida-nos a pensar sobre situações do cotidiano e do ambiente escolar e como são aproveitados esses ambientes para o uso e repasse da língua materna. Bechara afirma, que existe “opressão” na forma coloquial (“livre”) de falar, assim como também existe na arbitrariedade do “ensino exclusivo da gramática”. A “opressão” ocorre quando a “liberdade” coloquial é demasiada ou o uso da gramática é arbitrado. Bechara (2002/2007) defende o uso conjunto dessas duas situações, ou seja, usar a lingüística familiar (coloquial) de forma conjuntiva com as gramáticas, principalmente da gramática Normativa, enriquecendo o léxico do falante e deixando para que ele decida de acordo com o contexto, local, discurso, ambiente, interlocutores, etc. qual será a língua usada, pois o falante torna-se um poliglota em sua própria língua.

REFERÊNCIA:
BECHARA, Evanildo. O ensino da gramática. Opressão? Liberdade? 11.ed. São Paulo: Ática, 2007.
MEIRA, ANA CLARA G. ALVES DE, Mestranda do POSLIN/FALE/UFMG.

2 comentários:

  1. Este texto é uma bela colaboração, ao debate sobre usos, inedaquações e adequações das variantes do português. Continue colaborando com a construção do conhecimento. Forte abraço!

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  2. Diego,obrigado pelo comentário.
    Fico feliz em saber que você gostou.
    Volte sempre, será sempre bem vindo.

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